Carrie Bradshaw
e por que amamos odiá-la (ou o contrário)?
É claro que o perfil da dona Carrie seria o último, mas não menos importante. Pelo contrário. Como diz o produtor executivo Michael Patrick King no livro Sex and the City Kiss and Tell1 : “Escrever Carrie é sobre abrir seu coração e sua mente ao mesmo tempo”. E continua “Carrie Bradshaw, uma garota cosmopolita e colunista do New York Star, é o coração, a cabeça e - bem literalmente - a voz da série. Com sua inteligência, lealdade, um senso de moda impressionante e um coração aberto, ela é a melhor amiga que toda garota deseja ter e a namorada dos sonhos de qualquer homem”.
Será?
Bom, Carrie apareceu logo na primeira temporada realmente mostrando a que veio: questionar, questionar, questionar! Lembram quando no comecinho ela quebrava a quarta parede e falava com a câmera? Eu odiava, mas tivemos momentos icônicos, como esse aqui:
Uma constatação que ainda vale quase 30 anos depois. Homens, melhorem!
Carrie escreve uma coluna chamada Sexo e a Cidade em que ela fala sobre relacionamento e, vamo combinar, sempre achei um charme a vida que ela levava. Acordar a hora que bem entendesse, abrir o notebook em frente à janela, pensar no que tinha acontecido na noite anterior (ou só pensar na vida mesmo), beber um café e escrever.
Mais ou menos como eu faço agora (quando dá tempo) porém sem a grana (e o charme). Deve ser incrível trabalhar com o que se gosta…
Imagina só, fim dos anos 90, não existia esse sonho luxo (que querem matar a todo custo) de trabalhar de casa. Então eu achava incrível sim! Aliás, escritores em geral são um charme, eles exalam aquela vibe cool misteriosa, uma vida meio sei lá… despojada, interessante, nunca entediante, criativa.
Eu gostava de tudo que envolvia essa aura da Carrie: a coragem de se vestir como bem entendesse (nem sempre minhas escolhas fashion seriam as mesmas, mas invejo a personalidade dela nesse quesito), um closet invejável pra quem vivia com um salário aparentemente curto, a disponibilidade pra encontrar as amigas toda hora, as festas, a vida sexual agitada, a liberdade e a coragem de ir atrás do que queria.
Mas dizer que ela é o tipo de melhor amiga que toda mulher devia ter, aí já é demais. Afinal, vamos lembrar aqui algumas das vezes em que Carrie foi bem escrota (não só como amiga, mas como pessoa mesmo). Eu começo com o episódio em que ela joga na cara da Charlotte o fato da amiga não ter oferecido dinheiro pra ajudá-la, praticamente obrigando a pobre a se sentir mal e no dever de vender seu anel de noivado (mesmo sabendo o que ele representava pra ela) por um capricho seu. Uma mulher velha daquela, francamente! Ela torrava todo dinheiro em sapato e roupas de marca e aí - de repente - a amiga tinha obrigação de resolver seus problemas?
E dizer que ela é a garota que todo homem sonha em namorar? Aquele episódio em que ela enfia o Big na casa de campo do Aidan depois de tudo o que rolou!!
Aí tentaram passar um pano quando ela acompanhou Nachata até o hospital depois de ser flagrada na casa da moça onde ela tinha passado a noite todinha transando com o marido… “tão galera, tão gente boa”.
Ela nem sequer conseguia ouvir os desabafos de Samantha, a amiga que sempre a ouvia sem julgar, porque não suportava falar de sexo. O tema de sua coluna. Hipócrita que chama?
Recentemente vi ou li um trecho de uma entrevista com a Sarah Jessica Parker em que ela se dizia p*ta da vida porque as pessoas não compreendiam a Carrie. Ah, faça-me o favor! Sabendo dos bastidores de tudo e das brigas entre ela e a Kim, nossa diva Samantha, dá pra entender que Carrie e Sarah - em algum momento - fossem até a mesma pessoa. Egoísta e autocentrada sim.
“A Carrie fuma e gosta de coquetéis, mas na verdade ela é antiquada. Se não fosse antiquada, ela não estaria nessa busca interminável. (…) Ela não se encaixa totalmente naquele mundo, mas tem isso na cabeça como seu destino final. A cabeça da Carrie está voltada para o clássico, seja lá o que isso signifique”, diz SJP passando pano pra sua Carrie no livro já mencionado aqui.
Ai, nossa, mas a Carrie só tem defeitos?
Claro que não. Eu sou dessas que detesta admitir, mas eu adoro a Carrie! Não concordo com a maioria das escolhas e atitudes da gata, mas tenho um pouco desse jeito dela de ver o mundo e as coisas. Não que tudo tenha um lado bom, mas mudando um pouco a ótica, sempre tem uma luzinha no fim do túnel.
Não dá pra negar que ela realmente queria fazer suas relações amorosas darem certo e não media esforços pra isso. É admirável. Por um tempo eu achei que era assim que as coisas deviam ser, mas aprendi que é vergonhoso quando a gente precisa se esticar, se espremer, se adequar pra caber na vida de alguém. Obrigada, Carrie, por essa lição.
Mais que vergonhoso, é uma verdadeira perda de tempo e falta de respeito com a gente mesma. Não vale a pena. Mas se eu for falar de todas as bolas fora da Carrie, essa newsletter vai ser infinita.
Agora uma coisa que me identifico com a diva é na questão “como resolver meus problemas agora”. Normalmente eu escolho comer alguma coisa bem gostosa ou fazer comprinhas. Nada melhora meu humor ou clareia minha mente tão bem quanto ir às compras. É como já dizia a gata “comprar é meu cardio”.
Mas bora focar nos pontos principais senão eu vou me perder aqui falando dela.
São tantos, tantos looks bafônicos que Carrie usa ao longo das temporadas que fica bem complicado escolher meus preferidos. “Carrie ama roupas, sapatos e bolsas e ela provavelmente é obcecada por moda desde o tempo em que era uma adolescente (…). As roupas são alegres, excitantes e intencionalmente provocativas, elas contam uma história” diz Patricia Field, a figurinista da série.
Fato! Eu acho que toda roupa que a Carrie veste tem uma intenção e um algo a dizer. Acreditam que essa saia de tutu icônica da abertura custou 5 dólares numa lojinha de rua qualquer?
Agora uma outra curiosidade, apesar da série ser (também) sobre sexo, SJP disse que jamais apareceria nua na tela pois não se sentia confortável. Por isso ela sempre está usando um sutiã nessas cenas (tinham reparado?). Aí ela usou a desculpa tática de Marylin Monroe de sempre usar sutiã na cama pra reafirmar o jeitão “old-fashioned” da Carrie, quer dizer, da dona Sarah Jessica, né? Antiquada demais!
Eu falo que elas são a mesma pessoa…
Outro fato é que muitos designers e grandes marcas começaram a usar a série como uma vitrine, os óculos modelo aviador da Ray-ban voltaram à moda depois que SJP usou em um episódio. Assim como o colar com seu nome (eu tenho o meu), aquelas flores giga que ela usou nas temporadas 2 e 3, os micro shorts, o colar que tinha 3 ferraduras juntas e, claro, os sapatos Manolo Blahnik. Eu gostava da maioria dos acessórios que ela usava, vocês não?
Outra característica icônica de Carrie é seu cabelo, eu acho perfeito de qualquer jeito: mais claro, mais escuro, mais longo, mais curto, mais liso, mais cacheado, preso, solto, num mundo (e época) em que todo mundo era obcecado pelo mesmo cabelo, Carrie era única, mesmo exibindo vários estilos de um mesmo cabelo.
Per-fei-to!
Eu facilmente moraria nesse apartamento! Eu gosto muito dos ambientes integrados, o closet entre o banheiro e o quarto sempre foi meu sonho! O banheiro eu achava um pouco caótico e a cozinha completamente desnecessária (já que Carrie nem cozinhava). Mas o resto eu acho tudo um charme. Os quadros despretensiosamente apoiados nos móveis ou no chão, as prateleiras cheias de livros, uma cadeira velha usada como mesa de cabeceira (estou obcecada procurando algo parecido aqui pra casa).
A decoração ali não era presa a nenhum estilo, era uma mistura charmosa (uma baguncinha organizada) de achados em brechós, peças vintage, um ambiente que traduzia bastante sua mente inquieta e inspiradora. Eu gosto tanto de entrar numa casa que se identifica de cara quem mora ali dentro. Casa que abraça, que acolhe, onde você se sente bem… o apezinho da Carrie me dá essa sensação gostosa.
Bom, foram 29 boys que a Carrie pegou ao longo dessas seis temporadas (e uma mocinha). Vou relembrar aqui três que foram altamente péssimos mas não ganharam tanto destaque: Bill Kelley, o candidato que gostava de ser mijado, Ray King, o músico que não ouvia nada do que ela falava e Howie, o padrinho do Harry que transava que nem uma máquina desgovernada (se você não lembra, ótimo!).
Mas, vamos ao que interessa, os piores dos piores (porque né, a coitada não sabia escolher mesmo).
Gente, eu podia falar horas e horas e horas de cada um deles, mas o que eu mais odeio com todas as minhas forças é o Berger, não há absolutamente nada de bom sobre esse homem.
Aidan podia até ter dado certo, mas a volta deles foi o maior erro da história. Ele aceitou Carrie de volta com o desafio de domá-la, castigá-la e transformá-la em outra pessoa. Petrovsky também podia ter dado certo até se mostrar um velho egoísta e autocentrado, assim como a própria Carrie. E o Big… ah, o Big. O crème de la crème dos macho tóxico.
Quantas vezes Carrie foi feita de trouxa por esse homem, não tá escrito. Ou melhor, tá né?
O que eu consigo analisar depois de assistir umas duzentas vezes é que Big era tão tóxico ao ponto de deixar Carrie viciada. Porque aquela coisa de some/aparece, ignora/procura ativa uma série de reações químicas viciantes mesmo, como cortisol, dopamina, oxitocina. Cada vez que ele oferecia uma migalha à ela, era como aquela recaída que o viciado tem, sabe?
Isso pode ter a ver também com o trauma relacional de sua infância, com o abandono do pai, talvez, Carrie tenha entendido que era necessário sempre se esforçar pra ser amada, escolhida. Inconsciente ou não, lá estava ela escolhendo homens sempre indisponíveis que confirmavam sua crença de inadequação afetiva. Haja terapia!
Pra ele era interessante, pois estava sempre no controle. Enquanto Carrie tinha um apego ansioso, uma necessidade de se sentir eleita, Big sempre a afastava porque não queria perder sua liberdade, porém não o suficiente pra que ela fosse definitivamente embora. Uma coisa meio sadomasoquista, eu diria.
Mas era como o sistema emocional de Carrie se sentia seguro (apesar de toda dor). Porque era o tipo de situação que ela já conhecia, que já tinha vivido, mesmo sendo totalmente disfuncional. Já que o que lhe era familiar era essa ambiguidade, essa crítica, esse abandono, esse silêncio, seria isso tudo que ela ia continuar escolhendo.
Homens como Big são feridas disfarçadas de desejo. Talvez eu faça uma edição especial sobre o Big… o que acham?
No fim, me incomodou muito eles terem reatado. Eu amo a temporada em que Carrie decide namorar Nova York e focar em si mesma. Acho que é a temporada que ela está mais feliz. O que reforça que a gente gasta muita energia em situações que não valem a pena, e normalmente essas situações envolvem o bicho homem. Que dureza!
No mais, eu acho que a Carrie era uma boa amiga - mas não a melhor amiga. Uma boa cia pra beber, sair e dar risada. Não sei se confiaria tantas coisas à ela como as meninas faziam… ela me irritava como amiga, não sei. Sabe, aquela pessoa que só sabe falar sobre si e não consegue ouvir o outro porque é sempre sobre ela? O problema dela é sempre pior ou a conquista dela é sempre melhor? Então, pra mim essa era a Carrie. E eu acho que ela só piora nos filmes e também em And Just Like That. Cês estão prontes pra julgar comigo?
Não deixem de conferir a seleção da curadoria da Carrie aqui embaixo e, se perderam as anteriores, temos a da Miranda, da Char e da Samantha, bora dar uma espiadinha!
E vamos à última curadoria de bolso? Acredito que um bom livro pra Carrie ler seria A Redoma de Vidro, já que ela romantiza crises existenciais femininas e ainda traz NY como pano de fundo. Eu vejo a Carrie escolhendo um perfume do mesmo jeito que escolhe os homens: primeiro pela fantasia que ele cria e depois pela estabilidade. Eu ando apaixonada pelas fragrâncias da Granado, e eu acho que ela usaria super o Vintage Flora Magnífica que mistura flores clássicas com notas tropicais e musk amadeirado. Segundo a própria SJP, uma nova iorquina nata não usa muita maquiagem, por isso eu a vejo usando um balm labial que cabe perfeitamente na bolsa de quem leva uma vida agitada, destaco esse aqui da Océane uma das minhas marcas queridinhas. E como Carrie sempre está em dia com o que tá na moda, ela levaria na bolsa um creminho de mão bem brasileirinho como esse da L´occitane de água de coco, tu-do! 🥥
Mais uma vez usando essa bíblia como referência pra escrever essas bios por aqui;
*A curadoria de bolso faz parte do Programa de Associados da Amazon Services LLC, que é um programa de publicidade (sim, odeio mas é minha profissão e todos temos boletos) que vincula alguns links de produtos que podem gerar vendas qualificadas pra essa que vos escreve. A ideia é trazer (nem sempre, mas sempre que eu achar pertinente) alguns produtinhos especialmente selecionados que, se vocês comprarem através desse link, não tem custo nenhum adicional mas ajuda a coleguinha aqui. Então se achar que faz sentido aí, bora? ;)














Eu amo o estilo da Carie, o ser despojado, despreocupado etc. O único problema é pensar que ela era uma 30+ com o eterno comportamento de adolescente. Acho que o que mais me incomoda é pensar que todas as meninas tiveram alguma evolução dentro dos seus núcleos principais, menos a Carrie.
Tipo, Samanta não acreditava no amor, apenas no sexo livre, mas no final ela encontra uma forma de se sentir amada e ter um relacionamento livre dentro dos parâmetros dela.
Miranda acreditava 100% no trabalho e não conseguia se entregar pra uma relação mais íntima, no final ela encontra uma forma de conciliar trabalho e família e descobre pode ser vulnerável e também se deixar ser cuidada.
Charlotte tinha o ideal de casamento e família perfeita, no final ela percebe que o que importa é o amor presente na família e não a aparência de perfeição.
E a Carie? Bom, ela começa a série querendo um homem que não quer ela, e termina a série querendo um homem que talvez queira ela um pouquinho. Eu sinto falta dessa evolução pessoal ou de ter alguma descoberta mais profunda sobre os relacionamentos. Até acho que eles tentam pintar alguma coisa de que "Ah mas o verdadeiro amor é o próprio" quando ela reencontra aquele colar com o nome e resolve largar o Russo, só que isso vem acompanhado da volta do Big numa vibe meio "ela é quem é do lado dele".
Concordo com vc, a Carrie parece uma ótima amiga de balada, mas não mto boa pra dar aquele colo.
E eu gosto da ideia de fazer um post sobre o Big, se não for abuso, eu iria sugerir pra fazer tbm dos machos principais da série, o da Samantha, da Miranda e da Charlotte tbm. Mas só se vc quiser rs