Carrie & Big
quando a matemática do amor não é tão lógica
Venho por meio desta trazer uma análise dessa relação horrorosa entre Carrie & Mr. Big. Acho que podemos devemos depois de seis temporadas e um filme pois temos muitos insumos.
Quando eu fiz a edição especial do perfil da Carrie, falei um pouco desse comportamento viciante dela em homens indisponíveis. É claro que esse é um tema recorrente nas minhas sessões de terapia pois, ao que tudo indica, estou sofrendo de carrietite, ou seja, dedo podre pra escolher homem. Quem nunca?
Olhando de fora, muitos anos depois, com outra bagagem, com várias experiências pelo caminho e tendo assistido dezenas de vezes, não que eu seja expert pois em matéria de coisas do coração não tem nada disso, consigo arriscar aqui alguns diagnósticos. Vem comigo!
Carrie e Big se conhecem na primeira temporada da série. Ela, por volta dos seus 30-32 anos, ele, 40-43. Então, podemos assumir que haja uma década de diferença entre eles. Isso importa? Um pouco. Porque uma pessoa com 40 anos ali em 1998, precisa ter nascido na década de 60, o que significa que foi criada por pessoas nascidas na década de 30 e por aí vai.
E faz diferença porque o contexto em que somos criados, por quem somos criados, com quem convivemos, vai ditar muito daquilo que nos tornamos. Não é à toa que dizem que a infância é um chão que a gente pisa pro resto da vida.
O que sabemos do Big? Quase nada, até porque a série parece que vai apagando o pouco que traz nos episódios sobre o passado dos personagens, mas sabemos que ele tem um irmão mais velho e uma mãe que ele gosta de acompanhar na missa aos domingos. O que isso pode ter afetado no comportamento de Big com as mulheres? O que ele procurava numa relação?
E sobre a Carrie, filha única com um pai ausente, que abandonou a esposa e a ela quando ainda era criança. E isso aqui deve dizer muito sobre nossa diva. Ela buscava alguém que a escolhesse? Alguém que ficasse? E por isso se submetesse a sempre estar se moldando pra caber nas relações?
Caí sem querer num perfil de uma psicóloga chamada Claudia Dominguez em que ela faz uma série de avaliações interessantes sobre Carrie e vou compartilhar aqui com vocês pra pensarmos se faz sentido (pra mim fez).
Pra Claudia, Carrie confunde toda atitude de Big, que lhe gera ansiedade, com amor intenso. Qualquer sinal de estabilidade e calma faz com que ela se sinta um pouco morta por dentro. Um pai ausente, normalmente, pode ativar outros gatilhos inconscientes e deixar a pessoa necessitada de uma validação masculina excessiva, é ter esse homem ali, a desejando, que faz com que Carrie “saiba quem ela é”. Ou que ela finalmente importa pra alguém.
De acordo ainda com o perfil, Big era “o pai emocionalmente ausente vestido de Armani”. O que Carrie gostava nessa relação era a promessa de finalmente ser vista. Ele era quem mandava e desmandava na “relação”. Aquela indisponibilidade toda dele deixava o sistema nervoso de Carrie ativado.
Essa montanha-russa de ansiedade (cortisol) seguida de alívio (dopamina) cria um ciclo de “recompensa por estresse”1 e isso vicia o cérebro, esgota o sistema nervoso e pode trazer consequências horríveis fisicamente falando. Mas, como todo vício, tem suas doses de prazer.
Big vivia sumindo e aparecendo, sempre quando era conveniente pra ele. E ela sempre estava disponível pra quando ele oferecesse qualquer migalha. É triste porque, no fim, o que a mantinha nesse looping era o fato de ela acreditar que finalmente ia ser escolhida porém ele sempre ia embora, reforçando a crença de que ela não valia tanto a pena assim.
São tantos momentos embaraçosos desse “romance” que eu resolvi trazer alguns aqui que sempre foram gigantescas red flags, mas que não foram capazes de fazer Carrie desistir desse homem.
As quatro mosqueteiras avistam Big e uma outra mulher almoçando num restaurante e Carrie decide ir dar uma de descolada, mas marcando território. Quebra a cara porque Big mal a apresenta pra moça e ainda faz questão de se levantar da mesa pra conversar no particular.
Eles não tinham uma relação oficializada, nunca soubemos de fato quem era aquela moça, mas é uma atitude que me deixaria em completo alerta.
Isso aqui a Carrie forçou demais a barra porque ela já tinha se convidado pra participar de algo com a sogra que só existia na cabeça dela e ele já tinha dito que ir à missa era uma coisa só dele com a mãe. Então não foi falta de aviso. Mas, ainda assim, ali estava mais do que claro que ela não era a mulher que ele queria apresentar à mãe.
Silêncios que doem mais do que tapas, temos! Eu já falei aqui e vou repetir, uma vez me declarei pra um mocinho que estava ficando há alguns meses e disse “estou gostando de você” e a resposta foi “muito mau gosto você tem” seguido de um silêncio constrangedor. Ali eu já sabia que não era correspondida e apesar de ele só ter confirmado um tempo depois, algo se quebrou. Como diz minha psicóloga, o silêncio também carrega muitas respostas.
Outra vergonha que Carrie passou no crédito porque no débito já não tinha mais saldo. A coitada se sentindo especial porque o querido a tinha levado num restaurante favorito seu, onde todo mundo o conhecia e onde ele se sentia muito à vontade pra dedicar uma música pra ela, até descobrir que lá era um lugar onde ninguém ia com alguém com quem tivesse intenção de assumir algo.
Sério… isso aí já era pra ter feito essa querida desaparecer da vida dele.
Mas não, calma que tem mais, sabemos.
Big comunica que está de mudança pra outro país. Ele não a convida, ele não pergunta sua opinião. E o que ela faz? Ela interpreta que foi incluída no combo e que vai junto com ele sim. É óbvio que quando se está numa relação não existe “comunicar” apenas algo grandioso como isso sem esperar uma reação. Mas daí ela se convidar também, ainda mais sabendo o quão escroto esse homem era, não dá.
E aí que ele era o cara que não queria nada muito sério com ninguém porque já tinha se divorciado antes (sabe-se lá deus o motivo). E lá vai ele ser feliz e solteiro em Paris. Só que o demônio volta pouco tempo depois. Quando Carrie está quase curada dessa desgraça. E ele volta na-mo-ran-di-nho uma mocinha sem gracinha porém mais novinha do que a Carrie.
Ai, homens, tão clichêzinhos.
E aí vou ter que fazer um parênteses pra analisar a Nachata. Até porque isso tem acontecido muito, os caras depois de meses comigo sempre pulam fora alegando que não estão prontos pra assumir nada mais sério e pouquíssimo tempo depois aparecem namorando outra. Ou seja, eles não querem assumir nada com a gente, Carrie, mas com outras eles querem sim.
E fica a (maldita) pergunta: por que não comigo?
Analisando ali a relação Carrie-Big-Natasha através do triângulo de Karpman2, nós temos de um lado Carrie, intensa, que questionava, exigia, queria compromisso, queria validação (uma vítima não passiva). Um Big que não queria amar, mas queria se sentir desejado sem ser exposto, ele não dava conta da intensidade emocional de Carrie (o perseguidor). E do outro lado, Natasha, tranquila, bonita, previsível, que não confronta, não exige, socialmente adequada. Além de ser mais nova, o que normalmente é mais fácil pra um homem controlar. A esposa troféu perfeita que dá a ele validação social sem intimidade emocional (a salvadora). Uma relação muito mais cômoda.
Sabe aquele papo de que a gente é muita areia pro caminhãozinho deles? Então, somos! Ou como diria Shakira em sua canção: “me tornei grande demais e por isso está com uma igualzinha a você”. Li-vra-men-to!
Brincadeira, eu sei que dói e que a gente fica presa tentando achar aquilo que faltou em nós, mas acreditem em mim, não faltou nada. Vai passar e vai ter sido melhor assim.
Isso aqui… eu nem sei avaliar o que foi isso. Carrie sadomasoquista total querendo ser desconstruída, a best friend do macho e surtando com a notícia porque né, é óbvio que surtaria. É como se ela dissesse “me bate”, ele batesse e ela respondesse “por que me bateu?”. Nem tem como defender.
E sabemos que esse puto vai trair Natasha com a Carrie. E por que? Porque ele sabia que ela parecia o ter superado, já que estava numa outra relação. E talvez Carrie tenha caído nessa armadilha por puro despeito, por raiva da “rival”, quando na realidade, não era dela a culpa.
Aliás, eu nunca entendo as mulheres que partem pra cima das amantes do companheiro sendo que quem deve algo ali são os homens. Batam neles, meninas, deixem a moça em paz. Ah, mas é vagabunda igual. Tá, mas quem é que tem compromisso e deve algo a vocês, ela ou ele? Cês batem na moça e voltam pro cara como se ele fosse um anjinho que tivesse sido obrigado a cair nas garras dela. Eu hein, acordem!
Mas voltando aqui, Natasha provavelmente ativava na Carrie uma sensação de ser a versão correta de uma mulher, de ter aquilo que toda mulher deveria ter pra ser escolhida. Então, possivelmente, Carrie tenha pensado inconscientemente em se vingar dela além, é claro, de alimentar seu vício em Big.
Vamo combinar que nem a Nachata merecia isso. E ela realmente era elegante, não ficou nessa disputa pelo macho, ela era equilibrada, típico de uma pessoa bem resolvida, que sabe seu valor. Ela devia fazer terapia, com certeza. Natasha, de certa forma, devia trazer à tona essas partes sombrias de Carrie: a de se sentir pequena, de que existe outra fazendo melhor, de que não é suficiente e por aí vai.
Isso aqui foi um episódio de terror! Aqui não tem como explicar nem entender mais nada. Aqui a Carrie foi tão filhadaputa com o Aidan, mas tão, mas muito mais do que quando tinha um caso com o cão do Big. Porque esse satanás fica usando a Carrie de amiga pra esfregar na cara dela que tá namorando uma famosa (mais uma novinha) e se sente inseguro porque não está no controle da situação. E se enfia dentro da casa do Aidan pra chorar as pitangas, olha, francamente a noção passou longe dos dois… só mesmo muito biruleibe das ideias pra continuar aceitando uma criatura dessa em sua vida.
Porque se tem uma coisa em que o Big é bom é em controlar a narrativa. Porque tecnicamente ele nunca mentiu, sempre ficou naquela de “somos só amigos”, às vezes amigos com benefícios, mas também não era capaz de ir embora ou sustentar nada que oficializasse a situação. Vai mantendo a pobre num limbo emocional onde ele tá sempre indo e vindo pra ter atenção, mas não muito perto pra não ter que dar nada. Ele está mas não existe, sabe? E assim vai deixando Carrie confusa porque ela não é capaz de entender o que realmente ele quer.
E assim ela vai esperando, alimentando sua esperança, até que ele esteja finalmente pronto e possa, enfim, a escolher.
E Carrie poucas vezes explodia porque seu cérebro aprendeu que brigar poderia significar perder definitivamente. Então melhor aceitar migalhas do que não ter nada. Se eu peço mais, ele pode ir embora. Eu já passei muito por isso, sendo a filha que nunca quis dar trabalho, eu cresci achando que não podia pedir ajuda porque podia afastar as pessoas. Até hoje trabalho isso na terapia porque é terrível, é uma sobrecarga imensa. Dói, esgota. Mas a gente vai dando um jeito de passar despercebido pra não causar impacto no outro.
Aí Big vai até Paris (que ironia) atrás da dona Carrie, seis temporadas depois, pra dizer que finalmente ele tinha conseguido se decidir e escolher ela. Antes tarde do que mais tarde, né?
Acho que meio que todo mundo torcia por um final feliz pra Carrie, mas hoje eu acredito que o melhor final seria ela na terapia vivendo um romance consigo mesma.
E aí chegamos ao fundo do poço porque é como diria um antigo chefe meu: “pro pior não há limites”.
Gente, depois disso, eu não tenho mais palavras pra defender mais essa pataquada. É muito triste quando uma pessoa não se dá conta daquilo que merece, não se ama em primeiro lugar (alô, Samantha, ajuda aqui!?) e fica presa numa situação humilhante dessas…
Eu sei que é fácil falar e julgar, que estando na situação as coisas são difíceis mesmo, eu sei. Mas a gente tem que colocar um limite uma hora. Ser a princesa que vai se salvar da torre em chamas. Agradecer migalhas enquanto você poderia estar se esbaldando num banquete, não dá sabe? Tem que haver um fundo do poço, ele não pode ser infinito.
Pra finalizar, o Big nunca entendeu nada e nem a Carrie. Depois dessa cena aí de cima, ela termina o episódio toda segura de si, cabelos ao vento dizendo (em locução off): “então pensei, talvez eu não tenha destruído o Big. Talvez o problema fosse que ele não conseguiu me domar. Talvez algumas mulheres não tenham nascido para serem domadas. Talvez elas precisem correr livres até encontrarem alguém tão selvagem quanto elas para correr junto”.
Pensou ela, louca pra ser domada pelo Big, depois de ser destruída por ele tantas e tantas vezes.
E vocês, o que acham disso tudo? Já viveram alguma presepada assim?
Fonte: National Geographic;
Triângulo de Karpman ou Triângulo Dramático, criado na década de 1960 pelo psicólogo Stephen Karpman, é um modelo de dinâmicas interpessoais destrutivas que mapeia relações tóxicas ou conflituosas através de 3 papéis inconscientes: a vítima, o perseguidor e o salvador;











Eu ja fui uma Carrie, cheguei ao ponto de aceitar uma amizade colorida com um boy só pq ele não queria nada sério e eu tava apaixonadinha e não queria largar o osso! Graças a deus eu consegui romper esse ciclo e fui entendo cada vez mais meus motivos pra ficar (que percebi que não eram nada nobres também) mas isso eu tinha uns 17/18 anos, hj com meus 32, alguns relacionamentos passados (um deles bem escroto diga-se de passagem) e muita terapia (principalmente pra sair do mais escroto) eu acho q consegui perceber minimamente as red flags mais evidentes, mas foi muito tropeço até chegar aqui. Espero que cada vez mais nós mulheres rompamos com esses padrões malditos ditados pelas comédias românticas dos anos 90 que estão voltando com força agora nos doramas koreanos. (Atenção ai galera!)
ai eu amei essa análise! e eu sempre ficava inconformada assistindo porque tem algumas cenas que ele coloca bem claro tanto essas red flags que você indicou como tantas outras, mas que ela continua ali nessa saga de quanto mais ele bagunça mais ele na real quer ficar comigo.
e como isso fala do tanto que a gente foi ensinada na vida ne? é um grande tema que surge de vez em quando aqui nas rodas de conversa de tentar sair desse roteiro de comédia de sessão da tarde com a galera no colégio / faculdade de que a vida amorosa só pode ser interessante se for com aquele cara popular que não dá bola pra não parecer que é legal e sensível senão será zoado pelos amigos - que vem nesse tanto da gente chegar nos extremos de justificar as diferentes violências como amor e cuidado ne?